O Segredo de Deus

Orgulho, o vício inefável dos tolos


 Eclesiastes 2:1-11

O orgulho, também chamado de soberba é o maior dos pecados.

No século IV, Evagrius Ponticus, um monge do deserto, desejoso de descobrir as mais profundas origens do pecado na alma humana, enumerou sete grandes pecados, intitulados os sete pecados capitais. A lista dos sete pecados capitais não é encontrada em nenhuma parte da Bíblia, mas seus efeitos e consequências são bem descritos, bem como as armas para vencê-los. Os sete pecados capitais não são tratados como situações estanques, mas como fator desencadeador de todos os demais pecados dos homens.

Frequentemente o orgulho é associado ao diabo. Este foi o pecado original de satanás. O orgulho também foi o pecado original de Adão (o nosso pecado), o desejo de ser como Deus, acima da Lei ao invés de sob ela.

O orgulho é o principal pecado porque é a violação do primeiro e grande mandamento.

O orgulho põe o eu na frente de Deus. Na história do fariseu e do publicano Jesus ilustra bem a atitude do orgulhoso. Ele se olha no espelho e admite para si mesmo que pode dizer com sinceridade que não é uma má pessoa: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens – ladrões, corruptos, adúlteros. O fariseu ressalta suas virtudes próprias e varre seus pecados para debaixo do tapete, não só para que os outros não vejam, mas para que, se possível, ele próprio não veja, e siga se achando justificado. Ele aprendeu a desenvolver seu senso de valor baseado em sua própria bondade.

Na Grécia antiga, Aristóteles chamou o orgulho de a maior das virtudes. O cristianismo o chamou de o maior dos pecados.

O problema é que o orgulho de cada um compete com o orgulho de todos os demais. Ou seja, o orgulho é essencialmente competidor; o orgulho não sente prazer em possuir algo, mas apenas em possuir mais do que o próximo. Dizemos que alguém tem orgulho de ser rico, ou de ser inteligente, ou de ter boa aparência, mas não é assim. A pessoa tem orgulho de ser mais rica, mais inteligente, ou de melhor aparência do que os outros (...) (P. Kreeft)

Agostinho via a soberba como o mesmo sentimento que levou Satanás a se afastar de Deus. Em sua raiz, a soberba é o desejo de desprezar todas as outras pessoas, ou em outros termos, é negar-se a reconhecer e admitir a presença, a igualdade ou mesmo a superioridade de qualquer outro.

O prazer de ser louvado não é orgulho. “Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel... (Mateus 25:21)”; você está muito bonito hoje, você cantou muito bem. O mal começa quando nos comprazemos em nossa própria realização. É pensar: “é mesmo, como sou bom! Já que agi assim”.

Categorias de Blaise Pascal

1. Algumas pessoas consideram que são a causa das suas realizações e talentos.

2. Outras reconhecem que estas qualidades vem de Deus, mas crêem que as merecem.

3. Existem aqueles que ostentam qualidades que não tem.

4. O quarto grupo despreza os outros que não tem as qualidades que eles possuem – eles chamam a atenção para sua própria singularidade – sua exclusividade. Nós frequentemente não reconhecemos que o orgulho é um vício. Isto porque é difícil admitir que somos menos dignos que imaginamos ser, e porque nossa cultura valoriza a auto-estima elevada e falha em apreciar a humildade ou mesmo a modéstia.

Discussão

Vamos dar uma olhada no nosso texto e aprender com o Pregador através da descrição de sua própria experiência.

1 Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. 2 Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve?

Comigo, isto é, com o meu coração (heb. leb), meu homem interior; minha vontade, meu caráter.

A motivação maior do orgulhoso é satisfazer o seu próprio coração.

Rapidamente, porém, ele esbarra no “paradoxo do hedonismo”:

quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado.

3 Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e entregar-me à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida.

A NVI traduz loucura como extravagânciamas também pode ser entendida como futilidade. O orgulhoso não mede esforços para satisfazer seu próprio desejo. Vale tudo para chegar ao prazer máximo. O orgulhoso entende a espiritualidade como mais um meio para ser feliz, no entanto, é promíscuo ao admitir que outros meios também podem trazer sentido à vida.

Sucesso profissional

4 Empreendi grandes obras; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas. 5 Fiz jardins e pomares para mim e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. 6 Fiz para mim açudes, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.

O êxito profissional por si só não constitui pecado. O Pregador mostra que foi um grande empreendedor, soube aproveitar todas as oportunidades que teve. Fez mestrado, doutorado, PhD; foi vereador, prefeito, deputado, governador, senador e presidente com excelência; Cuidou do seu próprio futuro e aprovisionou recursos para a geração seguinte.

Prosperidade financeira

7 Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; também possuí bois e ovelhas, mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém. 8 Amontoei também para mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

Mais uma vez o Pregador investe em algo legítimo: fez investimentos certos, poupou recursos financeiros. Um indício de que tratava bem os seus funcionários é que eles engravidavame se multiplicavam – o Pregador investiu em projetos altamente rentáveis.

Cultura e sensualidade

8 (...) provi-me de cantores e cantoras e das delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres.

A cultura é um bem de consumo imaterial bastante necessário. Todos gostamos de música, cinema, TV, jornais, revistas – as mulheres querem conhecer as últimas tendências da moda; os homens, da tecnologia. Pela primeira vez aparece algo não muitop louvável – a entrega à sensualidade, ou ao prazer sem barreiras.

Fama e popularidade

9 Engrandeci-me e sobrepujei a todos os que viveram antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.

Quem não deseja ser conhecido e louvado pelo que faz? O Pregador não se priva do desejo da publicidade. Ele espalha out-doors com seu rosto e sua logomarca por toda a cidade. Contrata grandes bandas populares para tocar nas suas inaugurações nababescas, se bem que as vezes não é preciso nem banda, tamanho é o carisma alcançado pelo sucesso dos empreendimentos do Pregador.

Sucesso profissional. Prosperidade financeira. Cultura e sensualidade. Fama e popularidade.

Ele se torna o dono do mundo. O dono do próprio mundo.

Observe que o Pregador gaba-se de ter criado um mundo só para si. Um mundo criado para atender ao apetite do seu próprio coração. Não houve limites para criar essa estrutura (v.10). E o objetivo desta gênese era um só: trazer prazer ao coração do Pregador. O Qohelet tenta competir com Deus. Ele não está satisfeito com o mundo que o Senhor criou para ele.O orgulho é mortal porque tenta competir com Deus.

O resultado desta competição pode ser visto no versículo 11:

11 “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol.”

Após satisfazer todos os apetites do seu coração e contemplar todo o pequeno universo criado pela sua mão, o Qohelet sente-se frustrado. A pior coisa que pode acontecer ao orgulhoso é ter exatamente o que ele quer: ser o melhor, estar acima de todos, ser melhor do que qualquer outra pessoa, sentir-se no pleno direito de desprezar todas as pessoas, ali em seu castelo, cercado de seus troféus, completamente sozinho.

O contraponto da soberba – “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” Mateus 5:3

As virtudes são oponentes dos pecados capitais. Os vícios são o resumo da miséria do mal (a excelência no pecado); as bem-aventuranças resumem a excelência do Reino de Deus.

“Foi a soberba que transformou os anjos em demônios, mas é a humildade que torna os homens em anjos”. Agostinho

A virtude da humildade é, talvez, a que mais se distancia do arquétipo pregado pela cultura secular. Os pobres de espírito (os humildes) são chamados “bem-aventurados”não porque sua pobreza lhes conceda alguma condição meritória, mas porque precisamente apesar disso e em meio a sua sempre deplorável condição o reino dos céus lhes traz a redenção pela graça de Cristo.

A soberba nunca nos deixará ser servos; ela sempre fará com que queiramos ser senhores de nossa própria sorte, reis de nosso próprio destino, sem devermos nada a ninguém. A humildade do cristão inspira-se em Deus e encontra sua segurança no fato de ele ter sido criado, amado e perdoado por Deus. O único caminho para se tornar humilde é admitir que é orgulhoso. É como se eu me considerasse um jarro cheio com qualquer coisa minha e eu decidisse esvaziar esse jarro e enchê-lo com outra essência.

O mundo é falho em entender o poder que há em esvaziar-se de nós mesmos. Se formos a Deus com as mãos vazias, ele as encherá.

Se chegarmos a Deus com as mãos cheias, ele não terá lugar para colocar-se. Nossa receptividade é nossa esperança.

Atitudes que me ajudam a vencer a soberba

Numa sociedade que recompensa a humildade exterior (é de mau tom parecer arrogante), algumas pessoas imitam comportamentos típicos de uma humildade típica. O maior perigo espiritual, no entanto, é a tentação da pessoa que é verdadeiramente humildade cair na armadilha do pecado, paradoxalmente, se tornar orgulhosa da sua humildade.

Confissão. Humildade requer de nós que sejamos brutalmente honestos conosco mesmo que a honestidade não nos deixe felizes. Humildade requer honestidade e integridade, que são incompatíveis com a interpretação de papéis e fachadas que assumimos na nossa vida diária. A auto-revelação servirá de antídoto para o orgulho. A pessoa humilde realmente admite a culpa e pacientemente ouve a reprovação e a raiva dos seus inimigos.

Servir. “Humildade é pensar menos em si mesmo” (C.S. Lewis). Não é dizermos para nós mesmos que somos inúteis, que não servimos para nada, que seria melhor se estivéssemos mortos e assim por diante. Na maioria das vezes, isso é autopiedade. Como posso ser humilde se estou sempre prestando atenção só em mim mesmo - se toda minha ação tiver como objeto o meu próprio prazer? O humilde nunca se engaja em atividades para angariar honra ou glória mas é motivado pela benevolência e a glória de Deus.

Se eu fizer isso, sem dúvida, um trono ficará vazio no meu coração, e é vital que eu tome uma boa decisão quanto a quem deveria ocupar esse trono. Ocupá-lo com outra pessoa, uma paixão por um time de futebol ou uma ambição profissional ou acadêmica não vale a pena. Ocupar este trono com uma atividade religiosa irrefletida, que não visa a glória de Deus, é engano satânico. Você está disposto a confessar a soberba ou é orgulhoso demais para admitir que não precisa do perdão de Deus?



Notas:

Bibliografia

C.S. LEWIS. Cristianismo Puro e Simples.

DALLAS WILLARD. A Conspiração Divina. Ed. Mundo Cristão.

DEREK KIDNER, A Mensagem de Eclesiastes

GRAHAM TOMLIN, Os sete pecados capitais. Thomas Nelson Brasil.

MORGAN DIX, S.T.D. D.C.L. Reitor do Trinity Chapel, New York, 1888

OS GUINNESS. Os Sete pecados Capitais. Ed. Mundo Cristão.

PETER KREEFT. Back to Virtue. Ignatius

RICARDO AGRESTE, Rev. Os sete pecados capitais. Com. Presbiteriana Chácara

Primavera, Campinas, SP

SOLOMON SCHIMMEL, The seven deadly sins: Jewish, Christian, and classical reflections

on human psychology, Oxford University Press, 1997


 por Fabrício Batistoni
www.irmaos.com

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