O Terceiro Sexo - Hijras

                     
Foto: ericparker

A mulher que posa para a foto acima, tirada no complexo do templo de Tulashi Baag, no distrito de Pune, na Índia, é, na sociedade hindu, uma representante do terceiro sexo.

Em meio a controversos valores que envolvem misticismo e segregação, as
hijras são transexuais admitidas no sudeste asiático e em algumas culturas islâmicas como indivíduos nem masculinos, nem femininos.


Com sua existência milenar registrada, inclusive, no Kama Sutra, as hijras vivem em micro-comunidades cooperativistas chefiadas por um guru - em geral, uma hijra mais experiente - onde se refugiam da ridiculização, extrema pobreza e violência que as importunam, à margem da sociedade de países como Índia, Bangladesh e Paquistão. Forçados de maneira implacável por suas famílias a abandoná-las, além de privados de educação, trabalho assalariado e direitos civis, os transgêneros hindus vêm nenhum outro caminho a não ser viver em colônia enquanto se sustentam como prostitutas ou pedintes.

Ainda na adolescência, o garoto que se identifica como um transexual torna-se um chela (“estudante”) de seu guru, para quem passa a entregar todos seus bens e ganhos em troca de proteção.

As hijras constituem uma casta distinta na intricada e austera organização social hindu. Seguidoras de Bahuchara Mata - deusa relacionada à sexualidade que teria se vingado de um perturbador “retirando” sua masculinidade -, as hijras têm, no hinduísmo, o poder de abençoar ou de amaldiçoar. Por isso, são convidadas a lançar suas predições de boa sorte, fortuna e fertilidade em celebrações como casamentos e aniversários em troca de dinheiro. Religiosos mais ávidos jamais negam algumas rúpias ao um membro do terceiro sexo, temendo pragas e infortúnios. Algumas hijras também completam seu ganha-pão dançando ou cantando em festivais locais ou nos grandes centros; ainda assim, seu mais usual meio de sobrevivência é a prostituição.

Apesar de menos 20% dos transgêneros na Índia serem castrados, hijras eunucos desfrutam de maior status entre o grupo, além da preferência dos clientes

A castração é parte de um violento ritual à Bahuchara, o nirvan (“renascimento”), onde os órgãos masculinos são removidos anestesicamente apenas com uma faca.

O governo indiano não permite a realização legal da cirurgia de transformação de sexo, sujeitando os transgêneros a métodos irregulares e insalubres

Como devotas de Bahuchara, as hijras acreditam na não-violência e consideram o sacrifício de animais um pecado. Algumas delas conseguem se casar com outros homens e há casos, especialmente entre gurus, de hijras socialmente inseridas, que alcançam escolaridade e carreira profissional. Raras exceções capazes de refutar a intransigência de uma sociedade que, apesar de milenar, engatinha e se embaraça em um insignificante e, ao mesmo tempo, danoso empecilho das relações humanas: o convívio com a diferença.

0 comentários:

Ocorreu um erro neste gadget